Sales & Pina Prata in Portuguese

Ser Terapeuta Sistémico na Família e nas Organizações

 

 Célia M.D.Sales1 & Francisco Xavier Pina Prata2

1Universidade Autónoma de Lisboa, Centro de Investigação em Psicologia (CIP/UAL),

 Portugal and Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS- ISCTE/IUL), Portugal

Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária (APTEFC)

2Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação de Lisboa, Portugal

Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária (APTEFC)

 

 

Este artigo é um contributo para o conhecimento de um dos pioneiros da terapia familiar na Europa, F.X. Pina Prata. Com base numa entrevista, e com breves notas biográficas contextualizadoras, começa-se por revisitar a sua concepção sistémica alargada, i.e., o reconhecimento dos invariantes de qualquer sistema humano, seja ele a família, a comunidade ou a empresa. A aplicação prática destes princípios é ilustrada com acontecimentos da sua vida pessoal e com relatos de intervenções organizacionais e familiares. O diálogo é depois dirigido para o que é, afinal, a terapia, o que distingue a intervenção clínica sistémica de outras psicoterapias, e a evolução que ao longo da vida se pode percorrer desde fazer terapia a ser um terapeuta. Para além dos conteúdos deste artigo, a transcrição dos diálogos permite conhecer o estilo criativo, metafórico, recursivo e inteiramente ético de Pina Prata.

 

Palavras-chave: Pina Prata, terapia familiar, organizações, sistémica, ser terapeuta.

 

No Verão de 2000 iniciei com o Prof. Pina Prata uma série de entrevistas sobre terapias e terapeutas. Do nosso projecto inicial ficámo-nos por uma entrevista de duas horas, numa bela tarde de Julho, em casa do Professor. Recuperamos agora, quase 10 anos mais tarde, algumas linhas da nossa conversa, em redor de um tema central: Ser terapeuta sistémico.

 

Conversar sobre este tema com um dos pioneiros da sistémica na Europa e em Portugal, é especialmente enriquecedor. Após uma formação intensa, com dois doutoramentos na Europa, com especialização em vários modelos terapêuticos, individuais, de grupo e de família, e com um especial interesse em psicologia social, Pina Prata regressa a Portugal para dirigir, no final dos anos 60, um gabinete interministerial para a educação, GEPAE[i]. Provavelmente, fruto destas suas experiências, Pina Prata desenvolveu uma concepção alargada da terapia sistémica: O diagnóstico e intervenção em sistemas perturbados, sejam eles a família ou a organização (Pina Prata, 1981b, 1981c). Cria no ISPA[ii] e no ISCTE[iii], a área de estudos de Psicossociologia das Organizações (Pina Prata, 1965-1973, 1973, 1975, 1976), enquanto, na vertente clínica com famílias, funda com um grupo de colegas o GUIR[iv] e mais tarde, a APTEFC[v] (para um breve panorama histórico, ver Pina Prata, 1980; Pina Prata, Sales & Vitória, 1999).

 

É talvez na estruturação do Departamento que fundou e dirigiu durante décadas, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação de Lisboa, que a sua concepção de terapeuta sistémico surge de forma mais explícita. Numa mesma Área, conjugava o que era incompreendido ao primeiro olhar: A formação de terapeutas clínicos, na área da terapia familiar e da intervenção comunitária, com a formação de psicólogos organizacionais. O comum era a abordagem sistémica.

 

CS - Uma coisa é formar terapeutas familiares. Terapeutas que requerem anos de treino clínico específico, psicoterapêutico. Outra coisa é formar um psicólogo que trabalha nas organizações, por exemplo, no departamento de recursos humanos. Se não pensarmos a um nível epistemológico ou meta-teórico (em que realmente têm algo em comum) parece que estamos a juntar duas áreas técnicas de intervenção, de actuação muito distintas. Trabalhar numa fábrica, ou trabalhar como clínico, num hospital, é muito distinto.

PP – Olhe, dizem que “Pina Prata às vezes não se percebe porque é muito teórico”. Eu penso que estou sempre a olhar no concreto. Mas como, segundo os clássicos, os homens da Idade Média, o pensamento nunca é o pensamento do concreto...

 

Estou a lembrar-me de casos concretos. Estou a lembrar-me do que se passou nos Cabos d’ Ávila. Estava lá um psicólogo, que era Director dos Recursos Humanos, que tinha sido meu aluno, no ISCTE. Eu fui lá. Aquilo era uma barulheira, um chinfrim enorme! Tão grande, tão grande, que eu não estava acomodado com aquele barulho. “Como é que estes homens aguentam isto, todos os dias?”.

 

E isso remeteu-me, neste próprio momento, para a experiência feita por Lewin. Estou a falar das fábricas. Porque no consultório não tem ruído. Na fábrica o ruído faz parte do sistema, não é ruído. Mas o que é certo é que aquilo era uma chinfrineira que eu não percebia. Mas ao Lewin aconteceu-lhe a mesma coisa. Ele não percebe nada do que se diz, por causa do ruído. Por isso pede licença para lá dormir. No dia seguinte, quando os operários entram, ele estava no chão, a dormir numa manta... E pouco a pouco descobre, na experiência que ele vai tendo, que ele aprende a ouvir no barulho. Esta experiência é muito engraçada: aprender a ouvir no barulho. É como se nós tivéssemos um seleccionador de ondas, como temos num aparelho. Sintonizamos para um posto, mudamos de canal e começamos a funcionar num sistema de audição que depende da aprendizagem.

 

Naturalmente que a experiência numa fábrica não é a mesma que no consultório. O ambiente é diferente, tudo é diferente, o espaço também, o silêncio. Tão diferente, tão diferente, que Freud, para ouvir bem e para não ter ruídos do paciente, senta-se numa cadeira e ao paciente num divã (penso que até de costas viradas para o paciente, não estou certo), para que não houvesse ruídos. Pura ilusão, pura ilusão, porque as interferências são permanentes. Antes os químicos estavam isolados. Hoje não passam sem os físicos, os físicos não passam sem os biólogos, a biologia está a arrasar e tudo isto é uma unidade enorme que supera a nossa cabecinha. Mesmo os grandes computadores não chegam lá...

 

Mas de facto, o lugar do psicólogo numa fábrica não é o mesmo que numa consulta. No entanto, há uma coisa em que é semelhante: ele vai encontrar-se, no deserto, com um homem. E desde que entra um homem, tudo vibra, tudo é diferente. E este psicólogo está aqui, como é que ele vai fazer para que isto mude um pouco?

 

Naturalmente que há uma distinção muito grande entre um terapeuta que faz terapia na faculdade ou no seu consultório, e o psicólogo numa organização, onde o central são as hierarquias e as estruturas. Na família, também há o problema da hierarquia e das estruturas, que é também importantíssimo, de tal maneira que, se ele se dissolve, há confusão intergeracional.

 

O psicólogo numa empresa tem que ter, muito bem, conhecimento do que é a estrutura, da forma como esta estrutura afecta os homens, como o poder é distribuído… Eu lembro-me quando fui operado e estava num determinado hospital. A um dado momento chega o rebanho do professor e dos alunos, pá, pá, pá, pá, sobre o meu caso... E eu digo:”Dão-me licença? Para começar, bom-dia”. (risos) Quer dizer, marquei uma posição de diferença que normalmente não é feita. Por exemplo, outro caso concreto, de uma senhora que tinha tido um aborto espontâneo. Eu fiquei espantado quando me foi dito, pela senhora, na relação terapêutica, como o médico chegou lá, descobre a senhora e mãos lá para dentro de qualquer maneira... Bom, percebe? Isto é inadmissível! Não pode ser! Mas as estruturas permitem isto. Na nossa actividade de terapeutas talvez se permitisse outra coisa, que era o saltar para uma relação, não de ajuda, mas de quase conjugalidade... E volto ao tema da grande diferença: enquanto que a Organização é dominada pelas estruturas, as famílias são dominadas pela relação, pela qualidade da relação. Mas a qualidade da relação existe também nas estruturas. E quando não existe estrutura numa família, vê-se o que dá.

 

O psicólogo é alguém que cultiva uma relação que é uma relação de pedido. Terapia é pedir. E diagnóstico, como sabe, é aquilo de que fico apto para falar. Portanto, o diagnóstico pode ser prévio. É ficar apto para falar. Tem que ser, primeiro, todo um alargar, portanto, a observação que é a sistémica: alarga a observação.

 

Assim chega às organizações, o modelo da terapia familiar – a possibilidade de olhar para o sistema. E hoje, de facto, continua-se a falar de sistemas e há-de falar-se de sistemas bastante tempo ainda, penso eu, porque ainda não está esgotado. Mas veja que mesmo aí passou-se de um modelo que era primeiro centrado sobre a pessoa, depois vem a relação interpessoal, passa-se para a descoberta do interpessoal, depois descobre-se o intrasistémico (que é a família), depois descobre-se o inter-sistémico (que são os diferentes sistemas), e agora estamos a ver a envolvente máxima de todos os sistemas, que é a casa em que todos habitam, a casa que é comum que é ECO, ecosistémica.

 

Pina Prata dedicou grande parte da sua vida à actividade clínica com famílias. É nesse enquadramento que surge a questão: O que é então ser-se terapeuta?

 

PP – A imagem do terapeuta não é a do engenheiro que monta andaimes. Ele faz isso melhor ou pior, consoante pensa ou não nos homens. Se ele quer ganhar só dinheiro.....

De facto, está para além do dinheiro, está para além de tudo. Não significa que ele não ganhe. Mas não é isso que vai determinar, ser 1 hora, 2 horas, ou uma terapia rápida. Se a psicanálise tem um cliente três vezes por semana, não é para ganhar dinheiro. É porque é assim o modelo. Agora pode ser que esse modelo seja vantajoso economicamente. Mas se, de facto, essa é a vantagem que ele tira do modelo, não está a fazer... está numa psicanálise, não é psicanalista.

CS – Fica-se pelo fazer terapia, pelo aplicar técnicas.

PP – Naturalmente. Descobre-se o paradoxo: Alguns aplicam o paradoxo como uma técnica – “pac”. Até dá! Até dá! Porque aquilo entra na borboleta da interacção e é digerido diferentemente pelas pessoas. Pode dar. Mas foi um acto técnico, não foi um acto de terapia. Mas os actos técnicos também podem resultar em terapia. Porquê? Porque entram numa relação que é sempre humana.

 

Mas a grande destrinça é entre ser e estar, ter e ser. Para além do dinheiro, que não é a motivação. Uma vez fiquei impressionado em Lovaina. Eu estava com um grupo de jovens especialistas e um deles perguntou “quanto levas”. O outro disse “olha, eu quando tenho um cliente, a primeira coisa que faço é ver a marca do automóvel”...

 

E aqui vou à redução do número de horas de terapia. O modelo analítico é um modelo muito longo de intervenção. Quando entrei para o modelo sistémico, não pensei nisso, na minha opção. Agora alguns dizem até que as terapias breves estão a ser prejudiciais porque estão a diminuir os lucros dos terapeutas. É que são tão rápidas que acabam por não ter ganhos (risos). Está a ver? O ser terapeuta e o estar a fazer uma terapia... Evidentemente é natural que os homens estejam preocupados com o dinheiro que ganham. E gostam de ser terapeutas.

 

O ser e o ter... Evidentemente que eu pugno-me pelas consultas rápidas e por isso pugno-me pelas intervenções de rua.

 

CS – E de autocarro

 

Desde há vários anos, o Professor realiza o que chama “terapia de rua” (Pina Prata, 2001-2010). Neste exemplo ilustra claramente como integra na sua leitura, o sistema familiar e o sistema organizacional. Certamente influenciado por Ortega y Gasset, sobre o qual versou a sua primeira tese de doutoramento (Pina Prata, 1962), Pina Prata entende o Homem nas suas Circunstâncias, no seu Contexto. E o contexto do homem vai para além da família, é também o contexto profissional, a organização. É assim que surge um entendimento da teia relacional na qual assentam e podem ser entendidos os comportamentos individuais, nesse todo familiar e organizacional (Pina Prata, 1981a).

 

PP – E de autocarro. E digo que são emergências, emergências terapêuticas. Ainda anteontem ia comprar o jornal e a pessoa que estava no quiosque diz: “Ah, ó sr. Fulano de tal, estou preocupada... A polícia anda atrás do meu filho. Imagine, quando eu abro a porta e vejo o meu filho, com as mãos na parede e duas armas apontadas ao rapaz”. A polícia tinha visto que a moto era roubada, portanto, “roubaste a mota”. Passa um carro-patrulha, cujo polícia conhecia o rapaz – veja o conhecimento, veja a estrutura, veja agora a qualidade da relação –, vem e diz ao colega “olha lá, isso deve ser engano; eu conheço esse rapaz e não me cheira que ele tenha roubado”. “Eu não roubei, comprei ao meu patrão!”

 

Bom, chega aquele “terapeuta” e entra numa relação com ele. Os primeiros estavam em serviço – utilíssimo! Eu aprecio muito o trabalho da polícia, compreendo perfeitamente o gesto da polícia, que eles tenham feito aquilo, porque a moto... Onde é que foi a falha? No sistema.

 

Não foi no gesto do polícia. O polícia fez o que, penso, na forma de actuar deles está correcto: Se há um ladrão que está ali com uma moto que foi roubada, tem que se ser rápido. A forma como o fizeram... Não o mataram - o rapaz estava belíssimo – mas certamente devia ter sido muito... A palavra que utilizou a senhora, a mãe dele, foi “o rapaz ficou muito traumatizado”.

 

Depois, o erro foi da estrutura, porque a moto tinha sido roubada e a Esquadra onde tinha sido denunciado o caso, que era X, que eu recordo mas não digo, tinha encontrado a moto, tinha devolvido ao dono mas não tinha “dado baixa” dela nas motos roubadas. Falhou a circulação da informação dentro da estrutura. Evidentemente que a polícia reagiu mal. Passa a relação, a pessoa (o polícia que conhecia o rapaz): “isso não pode ser!” – a qualidade da relação vai à re-descoberta do erro das estruturas. Isto é muito engraçado. Portanto, se a qualidade da relação não é positiva, não descobre os erros da estrutura nem corrige os erros da estrutura.

 

E eu faço uma intervenção. Diz-me assim a senhora: “ah, se pudesse indicar algum psicólogo...” Eu penso que estava a fazer-me o pedido, não é? Nem mais, nem menos, prr... vem ele de moto. “Olhe, vem ele aí”. E fiz-lhe uma terapia de emergência. Disse “Psst, anda cá. Eu já sei que te aconteceu aquilo ontem. Chato.” Eu fiz uma intervenção muito rápida. Deixe-me lembrar as imagens que eu lhe dei. Eu trabalho muito com as imagens, como sabe. “É natural que neste momento estejas ainda a estremecer com o que se passou. Faz-me lembrar aqueles passarinhos que estão num fio eléctrico e tocam com o rabito noutro lado do fio e sofrem um choque”. Dei-lhe este exemplo. Depois dei-lhe um segundo exemplo. “Ouve lá, tu tens uma corda esticada; se tu pegas num cabo de aço e lhe dás, o que é que acontece?” “Parte”, disse o rapaz. Podíamos interpretar que era uma maneira de ele dizer que estava partido. Não chego aí. Eu queria chegar pela minha imagem. Eu disse: “Até pode partir mas, seguramente, o que é que acontece?” “Ah, fica a abanar”.

 

Está a ver? Por um lado o passarinho sofre estremeções e depois o fio fica a abanar. O rapaz estava a abanar. Emocialmente, aquilo não passa assim. Aquilo acontece de manhã, duas horas depois ele estava a abanar. Qual é a minha mensagem? “Estás a ver? E depois o que é que acontece? Acontece que…”- E ia fazendo o gesto (oscila com a mão, cada vez mais lentamente, até que pára de abanar). “…E tu agora tens um grande ganho, tu ficas com créditos na polícia. Se amanhã te acontecer qualquer coisa – pode acontecer-te também de moto – a polícia vai ter em conta esses teus créditos, mesmo que, eventualmente, tu tenhas um pouco de responsabilidade no acto... mas já te conhecem, tens créditos. Vês? Tu ganhaste créditos hoje”. Está a ver os eixos em que eu trabalho?

 

Ontem encontrei o pai, 24h depois. “Então?” “Ah, já passou”. Naturalmente que não fui eu! (ri-se). Mas julgo que não foi inútil aquele encontro. Como disse a senhora, foi um encontro de terapia, foi uma intervenção de emergência emocional, de que tive resultado imediato, 24h depois. Qual é a influência? Não vou agora ver qual é a influência.

 

CS – O Prof. disse “Fiz uma terapia”. O que é que se faz quando se faz terapia?

 

Nesta fase, o diálogo avançou para um questionamento sobre o que é fazer terapia. Na verdade, nada do que vemos deixa de passar pelo nosso crivo. Na altura encontrava-me eu a fazer o doutoramento, precisamente sobre processos de mudança em psicoterapia (Sales, 2005). Interessava-me o tema. Perguntava-me a mim mesma se se poderia chamar àquela intervenção uma “terapia de rua”, ou simplesmente “apoio a um vizinho”…

 

PP – Não sei qual foi a frase que utilizei. Pois, cá está, fui terapeuta, fui terapeuta. O ser terapeuta implica actos de fazer terapia, de dar ajuda. Portanto eu fui terapeuta e estava consciente de estar a fazer terapia.

CS – Portanto, de dar ajuda

PP – Dar ajuda. Sabe que “terapia”, em Grego, significa “ajuda”; a tradução literal de terapia é ajuda. Portanto, eu sabia que estava numa relação de ajuda, relativamente ao pedido da mãe. É isso que faz o psicólogo.

CS – A psico-terapia ajuda a psique?

PP – Eu vi, foi, ali, aquela pessoa diante de mim. Ele estava a transpirar… Portanto, eu sou, de facto, pelo tempo curto de intervenção, pela consulta única, ou quase única.

CS – A terapia é então uma ajuda com um carácter especial

PP – Estamos a falar muito do tempo: quantas vezes? E distancio-me imediatamente do modelo do psicanalista, do muitas vezes.

CS – Ou do terapeuta familiar, que também é várias vezes.

PP – Está bem, mas dentro do modelo sistémico, que reduziu imenso. Palazzoli fazia 10 sessões, em 10 meses. O psicanalista era 3x4 por mês, eram 120 no mesmo período, era muito.

CS – O que é que teve de sistémica esta sua intervenção com este rapaz?

PP – Teve a polícia, teve a família, teve o rapaz, teve a namorada, teve a rua onde estava, o sítio onde estava, que era um quiosque. Estava embrulhado nestes sistemas. Eu estava com pressa, queria ir para a faculdade... Portanto, estava num ecosistema.

CS – Mas essa é a sua percepção. Houve alguma coisa de diferente naquilo que fez?

(Prof. fala da sua posição face à polícia do antigo regime, a má experiência do seu irmão, que também alimentou uma imagem negativa da polícia - que de alguma forma também influenciou a sua posição neste caso)

PP – Nesta intervenção que fiz estavam múltiplos sistemas a funcionar. Eu tive que intervir em múltiplos sistemas porque foram múltiplos sistemas que intervieram.

CS – Na sua avaliação

PP – Na minha intervenção

CS – Exactamente aquilo que o Prof. disse e a forma como disse, podia ter vindo de alguém que tinha uma interpretação (daquilo que estava a fazer) cognitivista, ou rogeriana, ou...

PP – Não sei porque não tenho experiência desse cognitivismo.

CS – É esse o significado que o Prof dá (ao que fez), é sistémico.

PP – É uma intervenção dentro do sistema familiar, no sistema alargado, portanto, a palavra “sistema”, que é o âmbito muito mais alargado da intervenção, naquele momento. Porque, se não, não fazia intervenção ali na rua. Só os médicos é que fazem intervenção de emergência na rua. Os psicólogos... Freud ia fazer emergência na Praça da Viena? Não. Marcava a hora, etc...

CS – E isso é ser sistémico?

PP – É ser.

CS – Pois

PP – É ser.

CS – Se calhar há psicanalistas que também são.

PP – Seguramente, seguramente. Naturalmente que sim.

O behaviorista, esse também não dá; esse iria para desensibilização progressiva, por exemplo. Primeiro aproximava-se do local, depois ia lá com as mãos... Estou a exagerar.

CS – Sim (risos)

PP – Mas, de facto, hoje estamos mais perto uns dos outros.... Todos podemos fazer essencialmente a mesma coisa, embora com nomes e com algumas metodologias e práticas diferentes, entre elas a prática do tempo. E a prática do local no tempo. Conhece algum psicanalista que fizesse esta intervenção de rua? Eu não conheço. Conhece?

CS – Se calhar não lhe chamava intervenção, não lhe chamava terapia.

PP – Bom, mas conhece alguém que fizesse isto?

CS – Eu conheco alguém que poderia ter tido essa conversa mas não encarar como tendo sido uma terapia.... Mas mesmo entre terapeutas sistémicos, também não conheço ninguém que o fizesse. Só conheço o Professor.

PP – Está bem, mas...

CS – Isso é mais de Sistémica ou é mais de Pina Prata?

PP – Oiça... (silêncio)

CS – É o ser terapeuta. Se calhar um Rogers também faria isso, se calhar um Whitaker também faria isso.

PP – Um sistema gera diferentes modelos, como o ventre de uma mulher pode gerar diferentes filhos. Eu fui um filho que fui gerado dentro de uma certa matriz. E portanto sou diferente do outro. Não interessa se sou o 3º, o 4º ou o 5º. Foi uma matriz que gerou diferentes modelos. Portanto eu sou herdeiro. Sou herdeiro da psicanálise também. Sou herdeiro também dos comportamentalistas. Sou muito herdeiro de um homem, do Rogers, que é o homem das relações humanas. Rogers. Conhece?

CS – Sim, e é o herdeiro destes livros todos, e é herdeiro da sua família, desse anjo da guarda[vi] que tem atrás de si... Que mania que nós temos de achar que aprendemos a fazer terapia na faculdade!

PP – Oiça, ó Célia, quando me abriram a máquina e me puseram cinco bypasses, eu garanto-lhe que não me ia pôr nas mãos de um tipo que tivesse só lido no livro... (risos)... ou que tivesse agora acabado a faculdade de medicina. É sempre alguém que praticou. Portanto, a herança é sempre uma herança daquilo que pensaram mas também daquilo que fizeram.

CS – E viveram, se calhar.

PP – E viveram, naturalmente.

CS – Eu encaro agora de uma maneira muito diferente, penso eu, uma questão de incesto, ou de maus tratos infantis graves, do que antes de ter um filho.

PP – Para si deve ser mais violento agora.

CS  – Eu penso que sim. Só de imaginar... Isso tem a ver com a minha vivência. E influencia a forma como me vou posicionar ali, frente àquela família...

PP – Eu recebi heranças de experiência. Um dos homens que me influenciou muito foi Whitaker. Influenciou-me imenso. Estou a vê-lo ainda em Roma, a fazer aquelas intervenções ao lado do Prof. Vela. Fui para Roma durante meses seguidos, 3 anos. E sempre que alguém lá ia, lá ia eu a correr! Minuchin também me influenciou. Que género de influência? Senti diferente do Whitaker. Whitaker marcou-me mais. Minuchin, estou perfeitamente a vê-lo. Depois eu vi as intervenções de um Vela... Portanto fui influenciado por muita gente que tinha prática terapêutica. O Haley, por exemplo, estive com o Haley.

 

Da minha parte, posso dizer que herdei muitíssimo de dois grandes mestres: o Prof. Pina Prata e o Prof. Ortega Beviá. Ortega descreve a terapia como um fenómeno co-humano, na qual o terapeuta se administra a si mesmo como medicamento. Um tratamento que é o Homem em relação, portanto! (Ortega Beviá, 2008). E foi sobre esta dimensão humana que a nossa conversa prosseguiu.

 

PP - Eu posso dizer da minha experiência de terapeuta: Naturalmente, que se eu tenho diante de mim uma senhora, não me é indiferente a beleza da senhora. Mas o encanto de estar com alguém prima, é o primeiro encanto. Estar com alguém. O Ortega (y Gasset), que me orienta muito do ponto de vista teórico, dizia: “estou no deserto, vê-se um homem despoletar no horizonte. Tudo muda, tudo estremeçe.” Portanto o principal é o desenvolvimento da relação. Na relação há depois o masculino e o feminino. Mas há a relação. Este é o primeiro encanto, o encanto da “relação com”. Com o outro que é diferente e ao mesmo tempo é próximo.

 

Depois há a fragilidade. E isso é uma coisa muito importante, a sensação de fragilidade. A fragilidade é murallha da nossa defesa própria: Quem não se sente frágil, avança e atira-se ao fundo. A fragilidade é uma qualidade da pessoa, de ser ela. Portanto, a fragilidade faz parte da capacidade do terapeuta. É fundamental para a capacidade do terapeuta. Fragilidade que não é “à parte”, faz parte de mim, que me vai amadurecendo. Está-se, é-se de outra maneira. É o encanto. E daí a diferença entre ser terapeuta, entre ser e estar a fazer uma terapia. Está aí a diferença. Quando se É terapeuta, o terapeuta incorpora já esta forma de ESTAR com o outro, que vai amadurecendo, gradualmente, dentro da própria fragilidade do terapeuta.

 

O panorama actual da terapia familiar em Portugal é fortemente marcado por Pina Prata. O seu pensamento delineou a formação de várias gerações de terapeutas sistémicos, na Universidade de Lisboa e na APTEFC. Muitos deles trabalham em contextos não-clínicos, como escolas, recursos humanos de empresas ou coaching organizacional. Independentemente do contexto, todos partilham esta nova forma de ver. O testemunho de Joanne Palma, psicóloga escolar, ilustra a sua influência.

 

Recordo nitidamente as primeiras palavras do Professor Pina Prata, no nosso primeiro dia de aula: "O princípio está no fim e o fim está princípio”. Enigmático e desafiador, um estilo próprio ao qual eu e os meus colegas acabaríamos por nos acostumar e decifrar, transformando o enigma em algo evidente. Ao longo das suas aulas, o Professor sublinhava a importância do nosso olhar, “-  E então? O que viram?” - a sua pergunta constante após termos visualizado uma de suas sessões. Era este primeiro "olhar", ressaltava ele, que acabaria por influenciar o modo como iríamos intervir ou introduzir quaisquer alterações no sistema." O que um terapeuta no início irá ditar o seu caminho e, no final, o seu destino terapêutico”.

 

No entanto, a abordagem sistémica abrangente de Pina Prata, a sua capacidade de ver simultaneamente em vários níveis e intervir apenas naqueles que melhor servem os seus fins terapêuticos, é para mime, ouso dizer, para muitos dos meus colegas -  a sua maior influência. Na minha prática profissional nas escolas, ao entrar numa sala de aula para ajudar um “aluno problemático”, o meu olhar foi ampliado por Pina Prata: “O que está em jogo aqui? Um aluno? Um professor? Problemas familiares e de quem? Políticas da escola? Políticas Ministeriais? Dificuldades financeiras? Limitações? E eu? O que mudo neste sistema, ao entrar nele? Serei capaz de ouvir através do barulhoinerente a esta situação?”. A sua pergunta acompanha-me sempre: “- o que vejo?”

 

Esta visão sistémica dos fenómenos escolares recebe já algum peso político em Portugal. Por exemplo, numa Audição Parlamentar sobre Segurança Escolar, foi solicitada a presença de um especialista que abordasse o fenómeno da violência escolar numa perspectiva sistémica, com o objectivo de contribuir para a definição de estratégias nacionais de intervenção (Sales, 2007).

 

Antigos alunos de Pina Prata são hoje professores ou investigadores, que continuam e renovam a sua herança, não só a nível nacional como internacional. Por exemplo, em 2011 um consórcio de Universidades Europeias e Africanas[vii] criou em Moçambique o Mestrado em Terapia Familiar e Comunitária, o primeiro do género no continente africano (Sales, in press). O plano curricular e a estratégia pedagógica que serviu de base para a definição do Mestrado é aquele que foi concebido por Pina Prata para a formação de terapeutas na APTEFC. 

 

Decorreram alguns meses no processo de revisão deste artigo. Uma pessoa nascida em 1924 não pode viver para sempre. Pina Prata morreu e dentro de três horas será o seu funeral. Lembrei-me das suas palavras numa outra entrevista, em 1999 (Pina Prata, Sales & Vitória, 1999).

 

Eu costumo dizer que há duas coisas que eu não quero ser: Se eu ganhasse uma fortuna não morreria milionário (distribuía rapidamente o dinheiro!) e não quero condecorações. O grande mal, o grande inferno é a pessoa falhar na sua existência. Nós somos em parte o conhecimento dos outros (como no filme de Papillon na prisão) mas somos também o que sabemos que fizemos ou não, se nos anulámos ou não.

 

(…) Eu não queria anular a minha vida no essencial, naquilo que é a raiz funda, no Eu que não está à venda.

 

 (…) Eu sei que eu fujo das ocasiões que me foram dadas de estar na praça pública. Como sabe, eu fui Director do Planeamento. Portanto o Ministro chamava-me, eu falava com ele. Não me viram muitas vezes. Mandava, quanto possível, aqueles que trabalhavam comigo. E que hoje são aí nomes sonantes. Não vou dizê-los agora. Estão em Ministros. (…) Eu não quis continuar. No entanto, tive ocasiões de aparecer. A televisão já existia… Havia muito trabalho a fazer.

 

(…) Estou a dar uma imagem positiva de mim próprio. No meu livro de cheques há aqueles em que tenho direito a asneiras e esses já os gastei bastante. Num sentido de espiritualidade, que é a minha, o que está ao meu alcance é o homem.

 

(…) Eu sinto-me sempre inacabado.

 

No fim da entrevista é-lhe perguntado: - Qual a pergunta que gostaria de ouvir da boca de Deus quando chegar à presença Dele? Responde: - Ouviste-me?

 

 

Referências

 

Ortega Beviá, F. (2008). Psicoterapia, teoría y prática. Sevilla: Publicaciones de la Universidad de Sevilla.

Pina Prata, F.X. (1962). Dialéctica da razão vital: Intuição originária de José Ortega y Gasset. (Tese de doutoramento) Lisboa: Morais.

Pina Prata, F.X. (1965-1973). Psico-sociologia da empresa: Apontamentos para as aulas teóricas e práticas do Doutor Francisco Xavier Pina Prata (11 cads.). Lisboa: Instituto de Estudos Sociais (texto policopiado).

Pina Prata, F.X. (1973). Psico-sociologia da empresa (Cad. 12): Elucidação da patologia das situações de conflito organizacional. Lisboa: ISCTE (texto policopiado).

Pina Prata, F.X. (1975). Métodos e técnicas da investigação sociológica. Lisboa: Secção de folhas da associação de estudantes do ISCTE (texto policopiado).

Pina Prata, F.X. (1976). Psico-sociologia das organizações: Apontamentos do Professor Pina Prata. Lisboa: Associação de estudantes do ISCTE (texto policopiado).

Pina Prata, F.X. (1980). Começos da terapia familiar. In F.X. Pina Prata (Ed.), Cadernos de Terapia Familiar e Comunitária (Vol. 1, pp. 7-16). Lisboa: Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária.

Pina Prata, F.X. (Ed.). (1981a). Cadernos de Terapia Familiar e Comunitária: Vol. 2. Patologia organizacional, patologia familiar e sistémica inter-relacional. Lisboa: Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária.

Pina Prata, F.X. (1981b). A psico-sociologia das organizações como fundamento teórico-prático da face estrutural do modelo sistémico inter-relacional da terapia familiar. In F.X. Pina Prata (Ed.), Cadernos de Terapia Familiar e Comunitária (Vol. 2, pp. 7-14). Lisboa: Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária.

Pina Prata, F.X. (1981c). Patologia organizacional, patologia familiar e sistémica inter-relacional. In F.X. Pina Prata (Ed.), Cadernos de Terapia Familiar e Comunitária (Vol. 2, pp. 21-49). Lisboa: Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária.

Pina Prata, F.X. (2001-2010). Pós-Graduação em Terapia Familiar e Comunitária: Apontamentos do Professor Pina Prata. Unpublished manuscript. Lisboa: Universidade Autónoma de Lisboa.

Pina Prata, F.X., Sales, C.M.D., & Vitória, P.D. (1999). Os 18 Anos da Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária. Newsletter Recortes, 1. Lisboa: Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária.

Sales, C.M.D. (in press). Para o Futuro da Terapia Familiar e Comunitária em Moçambique. Psique.

Sales, C.M.D. (2007). Segurança e violência escolar: Uma visão sistémica [School safety  and school violence: A systemic approach]. In Comissão Parlamentar de Segurança e Cultura, Deputada Fernanda Asseiceira (Eds.), A Segurança nas Escolas: Reflexões e Conclusões. Relatório final do Grupo “Violência nas Escolas”.  Lisboa: Edição da Assembleia da República Portuguesa. On-line available at http://www.parlamento.pt/sites/COM/XLEG/8CECposRAR/Actividades/Paginas/ViolenciaSegurancaEscolas.aspx?

Sales, C.M.D. (2005). Terapia Familiar en Contexto Psiquiátrico: Aportaciones para la Comprensión del Cambio Psicoterapéutico. [Family therapy in psychiatric context: Towards psychotherapeutic change understanding]. Unpublished Doctoral thesis. Facultad de Medicina de la Universidad de Sevilla, Departamento de Psiquiatría.

 

Notes



[i] Gabinete de Estudos e Planeamento de Acção Educativa

[ii] Instituto Superior de Psicologia Aplicada

[iii] Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa

[iv] Grupo de Universitários para a Intervenção Relacional

[v] Associação Portuguesa de Terapia Familiar e Comunitária

[vi] Estátua de um anjo esculpido em madeira, pela sua primeira esposa, falecida há duas décadas.

[vii] Universidade Autónoma de Lisboa (Portugal), APTEFC (Portugal), Dortmund University (Germany), Maastricht University (The Netherlands), Eduardo Mondlane University (Mozambique).